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  • A corrida por um espaço em Angola

    17 de setembro de 2016

    Rico em petróleo, país africano em reconstrução virou um ímã para empresas de todo o mundo – paranaenses incluídas

     

    Angola tem um jeito de Velho Oeste. Quem vai para lá tem dificuldade em encontrar coisas simples, como água potável, alimentos frescos ou táxis. A frase mais repetida em lojas e restaurantes é o ditado “Tem, mas não há”, que evidencia as dificuldades de produção e distribuição por que atravessa esse país que há apenas sete anos saiu de uma guerra civil que durou quase três décadas. Os pratos e produtos estão em cardápios e mostruários, mas não nas geladeiras e estoques.

    Assim como o Velho Oeste, Angola é também uma terra de oportunidades. Rica em petróleo e em processo acelerado de reconstrução, essa nação africana de colonização portuguesa é um novo horizonte a ser desbravado, que atrai empresas de todo o mundo. Lá faltam estradas, casas, prédios comerciais, hotéis, estádios de futebol, fábricas e plantações. “A transformação do país é muito rápida e visível. Em cada viagem noto algo novo, bairros que estão sendo construídos, ruas abertas”, conta o arquiteto Manoel Dória, do escritório curitibano Dória Lopes Fiuza Arquitetos Associados.

    Dória vai três ou quatro vezes por ano para Angola, desde que iniciou seu primeiro projeto lá, em 2006. Já se acostumou com a lentidão no aeroporto, o trânsito caótico e a pobreza aparente espalhada por todos os cantos de Luanda, a capital, e que contrasta com os bairros novíssimos que abrigam a elite local e expatriados de multinacionais.

    Foi uma aventura boa para os negócios, que começou com o projeto para um complexo de três torres construído por um grupo israelense, com 120 mil metros quadrados. O contato rendeu trabalhos para condomínios residenciais e ajudou no fechamento do contrato para projetar o Centro Empresarial Metroeuropa. Agora, também para o grupo Metroeuropa, ele estuda o projeto para um complexo em Viana, a 40 quilômetros de Luanda, que terá shopping center, arena esportiva, hotel, centro médico e condomínio residencial.

    Os planos do grupo Metroeuropa, uma firma de engenharia angolana comandada por um brasileiro, também atraíram a atenção da catarinense Cassol, que tem em Curitiba uma de suas cinco fábricas. Ela está erguendo uma indústria de estruturas pré-fabricadas encomendada pelo Metroeuropa e que já opera parcialmente. “Mandamos equipamentos feitos aqui no Brasil e funcionários para treinar a mão de obra local, com a ideia de fazer a transferência de tecnologia. As dificuldades são grandes para conseguir fornecedores porque quase tudo é importado”, conta Murilo Cassol, diretor da Cassol Pré-fabricados.

    Trabalhadores sem qualificação e falta de energia elétrica e insumos como cimento foram alguns dos desafios superados na implantação da fábrica, que já fornece peças para a construção de pontes e em breve fará complexos habitacionais. “Também temos um modelo de moradia popular que vamos mostrar para o governo”, completa. Apesar das dificuldades, Cassol é bastante otimista sobre o futuro angolano: “É um povo alegre, que trabalha bastante. Tem tudo para construir um grande país.”

     

    Casas

    Pelas dificuldades de logística e fornecimento, Angola se tornou um ímã para empresas que vendem casas pré-fabricadas. A empresa curitibana Paraná Wood Houses montou um escritório de representação em Luanda há cinco anos. Nos tempos de preço do petróleo alto, até meados de 2008, vendia em média uma casa por mês – todas de alto padrão, feitas de madeira de lei, compradas pela elite local. “Vendi casas para vários ministros e generais. A maior tinha 1,2 mil metros quadrados”, conta Adriano Coldebella, sócio da empresa.

    A longa relação com empreiteiras bem conectadas com o governo ajudou a Paraná Wood Houses a fechar há duas semanas uma venda de US$ 3 milhões. Serão oito escolas de 680 metros quadrados, cinco postos de saúde e 150 casas para funcionários públicos. “Teremos trabalho por um bom tempo”, comemora Coldebella. Agora, o foco da firma é entrar no ramo de casas populares. Em agosto, ela vai inaugurar um show room com uma construção em pinus, madeira ainda pouco aceita no país.

    Outra empresa que está no mercado habitacional de Angola é a MVC, fabricante de produtos plásticos de São José dos Pinhais. A primeira exportação foi em 2003. “Mandamos 20 casas para o interior. Foi muito difícil porque a infraestrutura era muito precária, e dois dos nossos funcionários pegaram malária”, lembra Gilmar Lima, diretor geral da empresa. Os contratos foram se repetindo: uma escola de 1,6 mil metros quadrados, uma pousada com 70 casas, outra escola, galpões industriais, totalizando quase US$ 7 milhões em seis anos.

    O segmento habitacional representa 15% da receita da MVC, metade disso vindo de exportações. “A experiência está nos ajudando a entrar em outros mercados, como Moçambique”, diz Lima. Além disso, o governo angolano tem planos para gastar mais com habitação. “É preciso ter um pouco de paciência. Eles demoram bastante para tomar as decisões.”

     

    Serviços

    O potencial de Angola também é grande no setor de serviços. A maringaense DB1, que faz softwares de gestão, firmou uma parceria com uma empresa angolana que vende os programas desenvolvidos no Brasil. “Já fechamos alguns negócios com o governo e esperamos mais encomendas conforme for melhorando a infraestrutura tecnológica do país”, diz Ilson Resende, um dos sócios da DB1.

    No escritório de projetos elétricos Jaguarê, de Curitiba, Angola representa cerca de 5% do faturamento. “É uma experiência interessante, que em algum momento pode se tornar mais importante para nós”, diz Nivaldo Antônio Zavan, proprietário da empresa. A Jaguarê fez projetos elétricos para a construção de uma clínica médica, uma igreja e três centros de serviços públicos.

     

    Guido Orgis

    Fonte: Jornal Gazeta do Povo

    12 de julho de 2009